sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Chapéu e palha




Há certos dias em que sofro de uma dádiva bizarra. Dias em que saboreio cores, dias em que ouço imagens, dias em que cheiro cabelos pelos movimentos ao vento.
Dias como esses são os mais especiais, dias que me lembro de pessoas que estão longe, de locais onde brinquei, da textura da massinha de modelar na pré escola.
Não se engane em chamar isso apenas de lembrança, não é tão simples.
Lembranças são sons, imagens, e quando sabores que são de seu costume provar ou reviver. Quando sentimos mais que isso, acredite, você entrou no reino da sinestesia.

São coisas que te fazem sorrir, vezes fazem chorar. O gosto do macarrão da minha vó, tão saboroso e com pimenta doce, eu sinto o adocicado daquela pimenta só de lembrar, eu sei o sabor certo, a medida certa, não sei como reproduzir, mas sei que nunca mais provei algo igual. O cheiro das camisas do meu avô, o cheiro do tabaco enrolado em palha, o cheiro do café e fumo impregnados em seu chapéu, que fez que hoje eu amasse este charmoso adereço. Posso sentir a sensação confortável de reclinar nas cadeiras feitas de borrachas verdes ou azuis, o canto do bem-te-vi do sabiá, o intrometido pardal desafiador de gatos, o cheiro de uma melancia ainda me lembra as horas após o almoço na casa dos meus avós.

As fotos me trazem sabores, os sabores me trazem lembranças, as lembranças trazem saudades, e sei que para um cristão assumido, falar de lembranças com tanto sentimento pode soar falta de fé, mas senhor, eu sou só um homem, e não me sinto nada mais que abençoado por essa felicidade que vem salpicada de saudade e tristeza.

Pois os anjos perfeitos, embaixo da terra ou nos altos céus, jamais provarão o gosto da pimenta doce, no macarrão da minha vó.

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